Mais de cinco semanas após o lançamento da Operação Epic Fury, o governo Trump declarou esta semana uma “vitória histórica e esmagadora” contra o Irã, mesmo com analistas e verificadores de fatos concluindo que os principais objetivos do presidente no conflito permanecem amplamente não cumpridos.
A guerra, iniciada com ataques dos EUA e de Israel ao Irã em 28 de fevereiro, entrou em um frágil cessar-fogo de duas semanas na terça-feira, após o Paquistão ter intermediado um acordo de última hora. O presidente Trump saudou o acordo como “um grande dia para a Paz Mundial” no Truth Social, escrevendo que “o Irã quer que isso aconteça, eles já chegaram no limite”. No Pentágono, o secretário de Defesa Pete Hegseth declarou que a marinha iraniana está “no fundo do mar”, sua força aérea foi “dizimada” e sua base industrial de defesa foi “completamente” destruída.
O Abismo Entre as Promessas e a Realidade
No entanto, uma análise dos próprios objetivos declarados por Trump — desmantelar o programa nuclear do Irã, destruir suas forças militares, romper suas redes de grupos aliados e promover uma mudança de regime — revela um quadro bem mais complexo. O governo iraniano permanece de pé, seu estoque de urânio enriquecido continua intacto, e suas forças armadas seguiram operando ao longo do conflito, atacando diariamente alvos em Israel e nos países árabes do Golfo.
O Irã ainda detém cerca de 440 quilogramas de urânio enriquecido a 60%, segundo o International Crisis Group, armazenados sob sua danificada instalação de Isfahan. Trump afirmou na quarta-feira que o Irã entregaria esse material em um esforço conjunto entre os dois países, mas Teerã não fez nenhum compromisso público nesse sentido. A proposta de paz iraniana com 10 pontos, aliás, exigiu que Washington reconhecesse seu programa de enriquecimento e levantasse todas as sanções.
A Associated Press informou que a lista de objetivos de guerra de Trump se expandiu e mudou ao longo do conflito, passando de três para cinco metas, mesmo enquanto a Casa Branca insistia que seus objetivos eram “claros e imutáveis”.
O Estreito de Ormuz e o Paradoxo Nuclear
Talvez a consequência não intencional mais marcante seja o fortalecimento da influência do Irã sobre o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo e gás mundiais. Antes da guerra, o Irã permitia a livre passagem de navios. Agora, Teerã instaurou um sistema de pedágio que cobra até US$ 2 milhões por petroleiro, e o acordo de cessar-fogo deixa o controle da via marítima nas mãos do Irã.
“De certa forma, isso legitima o controle do Irã” sobre o estreito, afirmou Ian Ralby, pesquisador sênior não residente no Centro Global de Energia do Atlantic Council.
Especialistas também alertaram que o conflito pode ter aumentado a motivação do Irã para adquirir armas nucleares. Shibley Telhami, professor da Universidade de Maryland, disse à NPR que o assassinato do Líder Supremo Ali Khamenei eliminou sua fatwa contra armas nucleares, e que a guerra transmitiu uma lição clara à nova liderança iraniana: “Os países que as possuem, como a Coreia do Norte, estão seguros, enquanto o Irã foi atacado várias vezes”. O Instituto Judaico para a Segurança Nacional da América corroborou essa avaliação, alertando que um regime “agora dominado por elementos radicais da IRGC” deve buscar uma arma nuclear “com renovada determinação e urgência”.
Um Irã Ainda Mais Linha-Dura
Em vez de uma mudança de regime, a guerra produziu uma sucessão geracional. O filho de Khamenei, Mojtaba Khamenei, assumiu o poder. Daniel Benaim, ex-alto funcionário do Departamento de Estado e atualmente no Instituto do Oriente Médio, descreveu o resultado sem rodeios: “Substituímos um regime resoluto, fortemente ideológico e dominado pela IRGC por outro regime igualmente resoluto, ideológico e inflexível, também dominado pela IRGC, sob o comando de um homem 30 anos mais jovem”. As negociações entre as duas partes estão previstas para começar na sexta-feira, no Paquistão.
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