Crise no Ormuz expõe falta de refino do Brasil, diz Gabrielli, ex-Petrobras.

Crise no Ormuz expõe falta de refino do Brasil, diz Gabrielli, ex-Petrobras.

Com quase quatro semanas de fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, o Brasil enfrenta um teste de estresse em sua segurança energética. O ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, avalia que o novo choque do petróleo revela uma fragilidade estrutural do país: a incapacidade de refinar internamente os derivados que consome, em especial o diesel.

“Nós perdemos a capacidade de segurança energética não no petróleo, mas nos derivados”, afirmou Gabrielli em entrevista ao canal Tutaméia, divulgada nesta semana. O economista lançou o livro “Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro”, editado pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).

Exportador de petróleo, importador de diesel

O Brasil produz cerca de 3,6 milhões de barris de petróleo por dia e exporta 1,6 milhão, segundo dados do Instituto Brasileiro de Petróleo. Porém, cerca de 25% do diesel consumido no país é importado, o que equivaleu a aproximadamente 17 bilhões de litros em 2025, de acordo com a Associação Brasileira do Biogás. A interrupção do fluxo pelo Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo — elevou o barril do Brent em mais de 40% desde o início do conflito, segundo o G1.

A defasagem entre o preço do diesel no mercado interno e a cotação internacional chegou a 74% em 24 de março, conforme levantamento da Abicom e StoneX. A situação levou o presidente da Abicom, Sergio Araujo, a alertar sobre “insegurança de realização de importações” para abril.

Refino abandonado e pressão nas bombas

Gabrielli atribui a vulnerabilidade à paralisação dos projetos de ampliação do refino após a operação Lava Jato e à privatização da BR Distribuidora. “Nós estamos exportando 1,6 milhão de barris por dia de petróleo. Nós temos mais petróleo do que precisamos. Nós não temos refino”, declarou. Segundo ele, se o país tivesse investido em novas refinarias, teria maior capacidade de amortecer choques externos nos preços ao consumidor.

O governo brasileiro anunciou em março investimentos em refinação, mas analistas avaliam que os efeitos são de longo prazo. Para Gabrielli, a guerra também deverá alterar a geografia do comércio global de petróleo, com maior participação do Brasil, Canadá e Guiana no fornecimento para China e Índia.

Oportunidade e risco simultâneos

Se o conflito se prolongar, o país pode se beneficiar como fornecedor alternativo de petróleo bruto para mercados asiáticos, segundo Roberto Ardenghy, presidente do IBP. “Se as coisas continuarem assim, com a queda dos estoques, países como o Brasil vão despontar como fornecedores alternativos”, disse à BBC News Brasil. Mas, sem capacidade de refino adequada, o ganho com a exportação de óleo cru convive com a pressão inflacionária dos combustíveis importados. “Ganha quando o preço sobe, mas paga caro na inflação”, resumou análise do portal Investing.com.

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