China pede cessar-fogo ao Irã enquanto colhe silenciosamente ganhos estratégicos.

China pede cessar-fogo ao Irã enquanto colhe silenciosamente ganhos estratégicos.

Seis semanas após o início da campanha militar dos EUA e de Israel contra o Irã, a China — maior compradora de petróleo de Teerã e autoproclamada defensora da paz — respondeu com pouco mais do que jargões diplomáticos e manobras econômicas discretas. A contenção reflete uma aposta calculada de Pequim de que seus vastos interesses comerciais no Golfo superam em muito o custo de apoiar um parceiro sitiado.

Cautela Diplomática em Vez de Confronto

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, reiterou na terça-feira o apelo de Pequim por “um fim imediato às operações militares”, responsabilizando os Estados Unidos e Israel por lançarem ataques “em violação ao direito internacional”. Ainda assim, o tom adotado tem sido cuidadosamente comedido. O principal diplomata chinês, Wang Yi, realizou 26 ligações telefônicas com colegas de países como Irã, Israel e Rússia, e na semana passada Pequim e Paquistão propuseram conjuntamente uma iniciativa de paz com cinco pontos — um plano que nem Washington nem Teerã reconheceram publicamente.

Nos bastidores, analistas enxergam um país tentando encontrar um equilíbrio delicado. Uma avaliação recente da Modern Diplomacy descreveu China e Rússia como “adotando uma estratégia de se beneficiar indiretamente do conflito em curso”, vendo-o como uma oportunidade de desgastar os recursos militares americanos sem envolvimento direto. Pequim, segundo a análise, interpreta o reposicionamento de porta-aviões e sistemas de defesa dos Estados Unidos do Pacífico para o Golfo como um enfraquecimento do pivô americano para a Ásia — um dividendo geopolítico que não custa nada à China.

Um Choque do Petróleo Amortecido pela Preparação

A interrupção quase total do transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz — passagem responsável por cerca de 40% das importações de petróleo e 30% das importações de gás natural liquefeito da China — normalmente representaria uma emergência econômica para o maior consumidor de petróleo do mundo. Mas Pequim passou boa parte do último ano se preparando. A China orientou suas empresas petrolíferas estatais a adquirir 140 milhões de barris de petróleo bruto para armazenamento entre meados de 2025 e início de 2026, de acordo com a Energy Aspects. As estimativas das reservas estratégicas totais da China variam de 1,4 bilhão a mais de 2 bilhões de barris — até cinco vezes o estoque dos Estados Unidos, segundo o Financial Times e a firma de pesquisa Gavekal.

O avanço chinês nas energias renováveis também ajudou a atenuar o impacto. Em 2024, as fontes renováveis responderam por cerca de 80% do crescimento da demanda por eletricidade no país, de acordo com o think tank de energia Ember, e um novo plano quinquenal prevê dobrar a capacidade de energia não fóssil até 2035. A guerra também acelerou o interesse em rotas de energia terrestres, com o mais recente plano quinquenal de Pequim prevendo o avanço do gasoduto Power of Siberia 2, proveniente da Rússia.

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A explicação mais contundente para a postura da China pode ser puramente matemática. De acordo com um documento informativo de março da Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China, a China registrou US$ 108 bilhões em comércio bilateral com a Arábia Saudita e US$ 108 bilhões com os Emirados Árabes Unidos em 2025, em comparação com US$ 41,2 bilhões com o Irã quando as compras de petróleo não declaradas são incluídas. O comércio do Conselho de Cooperação do Golfo com a China chegou a US$ 257 bilhões em 2024 e deve atingir US$ 375 bilhões até 2028, segundo a Asia House, com sede em Londres.

Conforme reportado pela CNBC, os investimentos de longo prazo da China em veículos elétricos, painéis solares e baterias significam que o país consegue absorver um choque no fornecimento de petróleo com mais facilidade do que seus vizinhos asiáticos. Por ora, Pequim parece satisfeita em clamar por paz, estocar petróleo e deixar os custos da guerra se acumularem no balanço de outra pessoa.

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