Cacauicultores bloqueiam BR-101 na Bahia contra alterações imediatas e queda de preços.

Produtores rurais e trabalhadores do campo bloquearam na manhã deste domingo (25) um trecho da BR-101, uma das principais rodovias do sul da Bahia, em protesto contra a forte desvalorização do cacau e o aumento das produtos africanos. O ato interditou a rodovia no distrito de Itamarati, município de Ibirapitanga, provocando congestionamento em ambos os sentidos da via.
A manifestação, que começou por volta das 7h40 no km 405, reúne cacauicultores que apontam a queda drástica nos preços como principal motivação. Segundo relatos de produtores locais, a arroba do cacau de espanca está sendo comercializada por cerca de R$ 250, valor que compromete a sustentabilidade da atividade e o rendimento de centenas de famílias da região. Os manifestantes também reclamam de prejuízos causados por descontos praticados na comercialização.
Colapso de preços após registro histórico
A crise atual contrasta com o cenário de 2024, quando o cacau atingiu preços recordes acima de US$ 12.000 por tonelada na Bolsa de Nova York, impulsionado por problemas climáticos e doenças nas atividades da África Ocidental. Desde então, os preços despencaram cerca de 63% em relação ao mesmo período do ano anterior, caindo para aproximadamente US$ 4.200 por tonelada em janeiro de 2026.
Relatório do Rabobank de novembro passado já previa queda nas cotações para 2026, com excesso de oferta global estimado em 403 mil toneladas na temporada 2026-27. A moagem de cacau na Europa caiu 8,3% no quarto trimestre de 2025, marcando o sexto declínio consecutivo, enquanto a indústria brasileira processou 195.882 toneladas em 2025, recuperando de 14,6% em relação ao ano anterior.
Pressão das importações africanas
Entre os fatores apontados pelos cacauicultores está o aumento das importações de cacau da Costa do Marfim e de Gana, que juntos respondem por mais de 60% da produção mundial. Em 2025, as brasileiras de amêndoas de cacau totalizaram 42.143 toneladas, um aumento de 65,2% em relação a 2024.
A tensão sobre as importações africanas também chegou ao Congresso. Em dezembro de 2025, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou projeto que suspende mudanças nas regras para entrada de cacau proveniente da Costa do Marfim, mantendo critérios fitossanitários para proteger os trabalhos brasileiros. O deputado José Rocha (União-BA) classificou a flexibilização como “verdadeiro retrocesso sanitário”.

Impacto regional
O sul da Bahia, berço histórico da cacauicultura brasileira, vive momento de incerteza. A Bahia ampliou suas entregas de 106,4 mil para 112,5 mil toneladas em 2025, elevando sua participação para 60,5% do total nacional, mas os produtores enfrentam agora o desafio de preços que não cobrem os custos de produção.
Até o fechamento desta reportagem, a pista permaneceu bloqueada e não havia informações sobre negociações com autoridades.
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