Brasil renuncia ao direito de bloqueio de compra de participação nuclear pela J&F.

O governo brasileiro decidiu não exercer seu direito de preferência sobre as ações da Eletronuclear que estão sendo vendidas pela Axia Energia — anteriormente Eletrobras — para o grupo J&F, de acordo com a Folha de S.Paulo, que citou quatro pessoas com conhecimento do assunto. A decisão elimina um obstáculo importante para a conclusão da transação de R$ 535 milhões.
A ENBPar (Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional), estatal que detém o controle majoritário votante da Eletronuclear, comunicou formalmente sua renúncia em uma carta enviada à Axia na semana passada, informou o Valor Econômico. De acordo com o acordo de acionistas da Eletronuclear, a ENBPar tinha o direito contratual de comprar as ações nas mesmas condições oferecidas à J&F. O governo vinha trabalhando para cumprir o prazo de 13 de fevereiro de 2026, mas optou por não exercer a opção de compra.
O Acordo
A Axia assinou o contrato de venda com a J&F em 15 de outubro de 2025, por R$ 535 milhões (aproximadamente US$ 98 milhões), conforme noticiado primeiramente pela Reuters. Por meio de seu braço de energia Âmbar Energia, a J&F vai adquirir uma participação de 68% no capital total da Eletronuclear e 35,3% de suas ações com direito a voto. O governo federal manterá o controle da operadora nuclear por meio da ENBPar, que detém 64,7% do capital votante.
Nos termos do acordo, a J&F assume obrigações anteriormente assumidas pela Axia, incluindo garantias sobre empréstimos à Eletronuclear e a integração de R$ 2,4 bilhões em debêntures vinculadas a um acordo de conciliação entre a Axia e o governo federal. O regulador antitruste brasileiro CADE aprovou o negócio sem restrições em dezembro de 2025.
“Com a conclusão da venda, receberemos R$ 535 milhões pela participação, mas mais do que isso, estaremos liberando as garantias, todas assumidas por nós ao longo dos anos em favor da Eletronuclear, com a J&F se tornando a garantida”, disse o diretor financeiro da Axia, Eduardo Haiama, um investidor no final do ano passado.
Crise Financeira da Eletronuclear
A dispensa e o acordo pendente ocorreram em um contexto de crescente dificuldade financeira na Eletronuclear, que opera as usinas nucleares Angra 1 e Angra 2 e a supervisão do projeto Angra 3, paralisado há muito tempo. O presidente interino Alexandre Caporal alertou no início de fevereiro que a empresa possui reservas de caixa apenas até meados de março e corre o risco de colapso financeiro.
Angra 3, cuja construção começou em 1984 e está parada desde 2015, consome cerca de R$ 1 bilhão por ano em serviço da dívida e custos de manutenção. O Ministério de Minas e Energia do Brasil solicita um transporte federal de recursos para evitar o que chamou de “insolvência iminente”, informou a Reuters em outubro de 2025. Os R$ 2,4 bilhões em debêntures que a J&F deve assumir poderiam fornecer um rompimento temporário assim que a transação para conclusão.
O Que Vem a Seguir
O preço de venda de R$ 535 milhões fica bem abaixo do valor contábil da Eletronuclear, de aproximadamente R$ 7,8 bilhões, resultando em uma provisão de cerca de R$ 7 bilhões registrada pela Axia no terceiro trimestre de 2025. Para a J&F, a aquisição marca a entrada dos irmãos Batista no setor de energia nuclear, somando-se a um portfólio energético em rápida expansão sob a Âmbar Energia, que já abrange ativos de energia solar, hidrelétrica, biomassa e gás natural. A conclusão da transferência de ações fará da J&F uma parceira do governo federal dentro de uma das empresas mais estrategicamente sensíveis do Brasil — mesmo enquanto ambos os lados lidam com o destino ainda indefinido de Angra 3.
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